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Da Pedra da Sé ao Mondego

Da Pedra da Sé ao Mondego

19
Abr15

Grandes portugueses - Grandes tabuenses

barroseira

Grandes portugueses – Grandes Tabuenses

Quem nasce no território tabuense, no sopé da Serra da estrela, ouvindo pela manhã o cantar dos passarinhos, a água a correr, as ovelhas a barregar e consegue enfrentar um clima por vezes agreste, está preparado para a vida.

A maneira de se expressar, a humildade dos seus gestos, o seu caracter batalhador faz da gente tabuense um verdadeiro símbolo beirão.

São três as características que definem a identidade tabuense;

1ª Humilde, ambição e nunca vira a cara à luta.

2ª Procura sempre uma vida melhor, nem que para isso tenha que partir para outras paragens.

3º Defende sempre a sua terra, nunca esquece as suas origens.

São estes três pontos que definem o espírito tabuense.

Para cimentar o que acabo de dizer, vou falar de um dos grandes tabuenses que partiram muito jovens à procura de uma vida melhor, este e muitos outros vieram a conseguir, concretizando o seus sonhos.

José Antunes Marques Abreu (Mestre Marques Abreu).

Nasceu em 1879-1958 na povoação da Pereira, freguesia de Mouronho. Frequentou a escola da Carapinha que ficava a 8 quilómetros da sua casa. Todos os dias fazia esse percurso enfrentando as intempéries do tempo.

Sarah Beirão em 1906 faz a seguinte apreciação das terras tabuenses «há estradas melancólicas, sob tuneis de pinheiros, vales encantadores duma flora variadíssima, aldeias escuras e mediativas, ocultas sob a cobertura imensa duma exuberante vegetação – onde do alto das mais pequenas elevações, se podem contemplar telas sublimes em que todos os tons da escala cromática dos verdes se casam à maravilha, na distância, com o azul delicioso das serranias».

Foi nesta beleza natural que nasceu aquele que viria a ser um génio, uma grande figura da Arte Portuguesa.

 

Início da sua vida;

Depois de ter sido aprovado no exame da instrução primária, o pai arranjou-lhe logo uma profissão. Tinha cerca de 13 anos e foi entregue ao tio Dinis, farmacêutico na vila de Tábua. Mas não era isto que queria. Nesta altura já era um artista, com um canivete sempre que podia passava o tempo a gravar em bucho carimbos e sinetes.

É esta grande vocação por arte que um dia mais tarde lhe vai trazer reconhecimento.

Passado um ano e meio saiu de Tábua e foi para a farmácia Quaresma de Côja, mas não esqueceu o canivete. Não esteve lá muito tempo, passados sete meses partiu para outros lugares, primeiro para Lisboa e depois para o Porto.

Estamos em 1894 e o José Antunes Marques Abreu tinha os seus 15 anos.

No Porto volta a trabalhar numa farmácia, e mas mais tarde passa para outra. Não era para ser farmacêutico que ele partiu das terras da Beira, mas tinha que trabalhar para viver.

Nunca desanimou, até que conseguiu arranjar um emprego numa oficina de um francês, para fazer o que gostava, gravura química e fotogravura. Mais tarde passa para a Fotografia Universal e depois para o Primeiro de Janeiro.

Era grande o seu entusiasmo, sempre com uma grande vontade de saber cada vez mais. Quando chega aos 19 anos a sua vida muda por completo, encontra um sócio capitalista e funda as oficinas Marques de Abreu.

É este espirito tabuense, Beirão de gema, que leva este jovem a atingir os seus objetivos. Nunca desistiu dos seus ideais. É assim que surge este grande homem tabuense, um artista completo.

Em 1923 a crítica diz o seguinte: «As suas reproduções não são apenas trabalhos técnicos primorosos; - os seus clichés fotográficos e as suas fotogravuras revelam sempre qualidades dum verdadeiro artista, a juntar às do benemérito que tanto quer à sua terra. Na escolha do aspeto, nos efeitos de luz, na mestria dos realces, descobre claramente esse quid que assinala não só o executante excelente, mas um enamorado da arte e da beleza».

Esta análise mostra-nos a grande ligação que ele tinha à sua terra, por ser uma pessoa de um nível superior, nunca esqueceu as suas origens. A isto que se chama “Identidade”, o verdadeiro espírito tabuense.

Marques Abreu foi professor na Escola Industrial Infante D. Henrique, nomeado por Carneiro Pacheco, ministro de Salazar.

Adepto fervoroso da Arte em especial dos monumentos nacionais. Por isso um seu amigo disse sobre o livro Arte Românica em Portugal da sua autoria o seguinte: «prestou um alto serviço à nação num momento em que as obras de arte no nosso país sofriam o mais completo abandono, condenadas por incompreensão ou desmazelo, a desaparecer».

Um dos muitos livros que escreveu sobre arte foi publicado em fascículos desde 1916 até 1918. Marques Abreu disse o seguinte sobre esta publicação: «o seu objetivo não foi arquivar neste livro todos os monumentos aquela arte concernentes, mas chamar à atenção do público criterioso, dos conselhos de arte e arqueologia, sem esquecer a dos poderes constituídos para uma riqueza artística até agora desconhecida ou desestimada em Portugal».

Este grande tabuense passou parte do seu tempo a chamar à atenção para o nosso património artístico, esta atitude demonstra a sua memória a funcionar, é assim que se constrói a nossa história.

No ano de 1911 estando mais uma vez na Pereira (Mouronho) sua terra natal, resolveu deslocar-se para fazer algumas visitas. Bastou deslocar-se 7 quilómetros até à aldeia de Lourosa para ficar estarrecido com o que via, a igreja de São Pedro de Lourosa não mantinha a sua traça original, a verdade histórica estava a ser adulterada. Mais uma vez o espirito tabuense vai funcionar, não desiste enquanto o ministro não ordenou a restituição da igreja à traça primitiva.

A sua arte, a sua mestria levou-o a fazer um verdadeiro inventário crítico e documentário do património artístico do Norte de Portugal.

Pelo grande trabalho que desenvolveu em prol da arte em Portugal em 17 de Dezembro de 1928 o governo de Portugal condecorou-o com o Grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. A sua humildade era tanta que nunca a usou. O seu saber nunca o envaideceu, continuou a vir lavrar as terras de seu pai e depois as suas.

Que grande lição nos dá este tabuense. Como este, haverá muitos mais filhos das terras de Tábua que distribuíram pelas terras de Portugal e além-fronteiras o seu verdadeiro espirito tabuense, são homens como estes que definem este nobre povo Beirão.

Os tabuenses são assim, têm uma grande vontade de vencer, lutam sempre até conseguir os seus objetivos.

Marques de Abreu foi reconhecido como uma alma primorosa, com um carater imaculado, um coração bondoso, uma modéstia sem limites, sempre avesso aos exibicionismos, à vaidade, homem de trabalho e saber. Fez-se um grande homem à sua custa, só a si o deve.

Que mais palavras é preciso dizer para demonstrar o verdadeiro espirito de tabuense? Vontade de vencer; trabalho, dedicação, humildade.

É isto a identidade tabuense.

António Nunes

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